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Artes Interativas e Método
Relacional
para criação de simulações
Este ensaio
realiza uma reflexão sobre o processo criativo e
delineia um método para a criação de obras
artísticas que nascem de relações entre o interator, o computador e o objeto material ou
virtual estimulável. As artes que possibilitam o
estabelecimento desse tipo de relações são aqui
denominadas interativas. Elas possibilitam,
muitas vezes, a tomada de consciência da
percepção 4D enquanto a ação ainda se processa.
Assim, ocorre como que uma amplificação do
processo sensorial devido ao fato de acontecerem
correspondências isomórficas entre os estados
perceptivos de quem está criando e os estados
potenciais imanentes do campo criado, os quais
afloram durante o processo de interação,
induzindo a emergência de repertórios
inovadores. Neste caso o criador é também o
interator. Quando a obra é disponibilizada para
performers ou para o público estes passam a
assumir o papel de interator e mudam as
características dessas relações, fato analisado
em outros ensaios.
A programação de
códigos computacionais e o método de abordagem
norteador dessa programação é parte intrínseca do
processo criador assim como o é a compreensão das
possibilidades matemáticas existentes no que hoje
se conceitua, nas ciências físicas e matemáticas,
como espaço-tempo. A apreensão e cognição de
fenômenos ilusórios e a não correspondência entre
eles com nossas referências habituais da realidade
física, as quais moldam a experiência humana
quotidiana, provocam experiências incomuns.
Interessa-me identificar os campos do conhecimento
onde tais experiências podem ocorrer. A seguir é
preciso desvelar os interstícios entre essas
áreas, geralmente dispersas em domínios
interdisciplinares diversos para, em seguida,
traçar estratégias que permitam explorar suas
possibilidades poéticas. Denomino ao amálgama
dessas diversas possibilidades como método
relacional de criação por aproximações sucessivas.
Esse método possibilita-me tecer e expandir
processos não lineares estabelecendo padrões
múltiplos em direção a estruturas cada vez mais
complexas; ele propicia o aglutinamento de signos
em novos significados, despertando sensibilidades,
instigando curiosidades, estimulando ações para
mim e para os demais, trazendo situações
paradoxais para serem vivenciadas.
Simulações tridimensionais, estereoscópicas e
interativas (Fraga, 1995), comumente designadas
como realidades virtuais, permitem experimentar
qualidades relacionadas com a sensação de
profundidade - denominada de estereopsia ou “visão
sólida” (Lipton, 1982) - e possibilitam tornar
visíveis dados virtuais transformando-os num
domínio tridimensional quase tátil. O fenômeno que
possibilita ver em profundidade as simulações
interativas de objetos tridimensionais confronta
as pessoas com uma sensação paradoxical, pois
tornam acessíveis aos sentidos simulações que são
estruturas imateriais, luminosas e intangíveis
(ver figura 1).
Esses objetos tridimensionais sejam eles materiais
ou virtuais (estereoscópicos) visam provocar
experiências incomuns naqueles que os vivenciam.
Procuro, através deles, acirrar emoções fazendo
aflorar qualidades afetivas, seguindo a linha de
pesquisa denominada computação afetiva pela
cientista Rosalind Picard (Picard, 2000). Tais
experiências suspendem a crença racional na
existência de uma realidade única. Elas despertam
a curiosidade sobre o mistério da mente e da
consciência serem capazes de criar realidades
contendo coisas quase táteis que agenciam o
impulso para serem apalpadas, embora sejam, ao
mesmo tempo, inefáveis; ou coisas quase orgânicas
e flexíveis que se movem caoticamente e se acendem
(reagem à luz negra) na presença do interator.

Figura 1:
Simulação estereoscópica para a instalação Raízes
Gigantes (trabalho em processo). Para perceber o
espaço em sua tridimensionalidade é preciso cruzar
o olhar até três imagens surgirem no campo visual
e então concentrar a atenção nessa terceira imagem
central.
continua...
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