Há três anos, com a publicação da Portaria nº
4.059/04, as instituições de ensino superior podem usar ferramentas do
ensino a distância nas aulas de graduação presencial. O período serviu
para que muitas capacitassem professores e iniciassem experiências em
aulas semipresenciais. Com a permissão legal de ministrar conteúdo a
distância em até 20% da carga horária dos cursos, a questão que fica é:
como fazer uso da tecnologia sem perder a qualidade? Com o pouco tempo
de uso, a técnica ainda enfrenta resistências, tanto de professores
quanto de alunos.
A discussão sobre os métodos pedagógicos do ensino a
distância ganhou ainda mais força com a publicação, no final do ano
passado, das diretrizes do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas
Educacionais Anísio Teixeira (Inep) para avaliação dos cursos e pólos de
apoio presencial. Se na metodologia do ensino a distância a questão da
aferição da qualidade ganha relevância, na sempresencialidade a fórmula
para saber como obter os melhores resultados de um curso que mistura os
dois métodos pode ser ainda mais difícil.
Obviamente, não existe uma
receita infalível para adotar a técnica, mas instituições e professores
que se debruçaram sobre o tema começam a colher resultados
satisfatórios.
A professora Ana Paula Mendes, da Faculdade Sumaré,
em São Paulo, trabalha com ensino semipresencial desde 2004. Como muitos
de seus colegas, foi receosa no início. "Que contribuição uma sala de
aula virtual poderia me dar?", perguntava-se.
Como muitos professores, ela passou por treinamentos
para familiarizar-se com as novas tecnologias e acabou seduzida. "As
possibilidades são incríveis, não me vejo dando aulas sem o suporte
virtual", confessa. Ana Paula dá aulas de economia e estatística e, em
seus cursos, monta atividades em que os alunos podem acessar dados reais
do IBGE ou da Fipe, por exemplo.
"Coloco on-line atividades complementares. Os alunos
podem testar seus conhecimentos com aplicações práticas, utilizando
dados reais para fazer uma pesquisa de mercado ou um estudo comparativo
entre dois setores da economia brasileira. São exercícios ótimos",
descreve.
Além disso, Ana Paula também trabalha com a
tecnologia wiki, um sistema colaborativo que permite a edição coletiva
de documentos on-line. Dessa forma, ela pode acessar os trabalhos em
andamento dos alunos, deixar comentários e acompanhar a evolução ao
longo do curso. Ela acredita que a ferramenta tem se mostrado útil e
dinâmica. "Uma coisa é corrigir um trabalho pronto e entregar para o
aluno. Certamente ele vai ver a nota, mas não vai refazer o trabalho
para corrigir seus erros.
Porém, corrigir o mesmo trabalho ao longo de seu
processo de criação, da forma como trabalhamos, é muito melhor. O aluno
vê onde está equivocado e pode, ele mesmo, reformular seu trabalho. O
ganho no aprendizado é evidente", diz Ana Paula.
O professor Carlos Straccia, da Universidade
Metodista de São Paulo, acredita que o conteúdo a distância deve atender
à necessidade da aula expositiva. "Para minha surpresa, algumas vezes,
eu consigo expor melhor o conteúdo em aulas virtuais do que em aulas
presenciais", diz. Carlos monta suas aulas em sistema de slides, grava
as explicações sobre o assunto e joga no ambiente virtual de ensino para
que os alunos assistam. O professor explica sua metodologia de trabalho.
"Coloco aulas expositivas e praticamente 100% do conteúdo no ambiente
virtual. As atividades práticas são 100% em salas de aula. Se o aluno
não acompanhar as aulas virtuais, não consegue participar das
atividades."
A interação é feita na forma de envio de perguntas e
discussão no fórum. No entanto, o professor ainda percebe dificuldades
por parte dos estudantes. "Embora o aluno de hoje seja usuário regular
de internet, quando se relaciona com a educação, ele ainda tem a visão
mais conservadora. Na hora de fazer a pergunta, ele fica intimidado.
Percebo que ainda há uma resistência relativamente grande em relação a
essa modalidade de aula", admite Carlos.
Para obter melhores resultados, o professor da
Metodista compartilha da idéia de que os docentes são os primeiros a
terem de estar preparados. "Só é possível ministrar ensino a distância
se houver capacitação. Temos de aprender primeiro a parte técnica, as
bases, para depois poder trabalhar com a parte pedagógica", afirma.
Outra professora que tem conseguido resultados reais
em ambientes virtuais é Liliam Silva, da Universidade Anhembi Morumbi.
Por meio de textos e conteúdos audiovisuais, os alunos têm contato com o
material do curso e estudam em grupos de trabalho, via fórum de
discussão. "O desafio para nós, tutores e professores, é evitar ao
máximo a solidão do aluno. Mesmo sozinho em frente do computador, o
aluno tem de se sentir amparado, parte integrante do processo
educacional", diz ela.
Por meio de constantes estímulos - em sala de aula,
via e-mail ou mostrando resultados - Liliam procura motivar a autonomia
de seus alunos. "Trabalho com EAD desde 2001; cada ano que passa os
alunos participam mais. Hoje, a não participação é insignificante",
afirma.
Sueli Pitta, professora de comunicação que também dá
aula na Anhembi, ressalta que os conteúdos on-line têm de primar pela
clareza e objetividade. "As instruções e regras têm de ser simples e bem
definidas. Quando evitamos rebuscamentos, diminuímos a 'tal distância'
com o aluno, e reduzimos o isolamento", acredita.