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Segundo o Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), principal órgão oficial de
estatísticas do Brasil, 14,6 milhões de pessoas não sabem ler nem
escrever, o que representa 9,6% da população total, hoje em torno de 185,9
milhões de habitantes. Outro levantamento, este realizado pelo Instituto
Paulo Montenegro (IPM) e pela ONG Ação Educativa, no ano de 2004, indicava
que 2% da população era analfabeta em números, ou seja, incapaz de
realizar operações simples com números, como decodificar o preço de um
produto ou anotar a seqüência de algarismos que compõe um telefone.
Segundo a mesma pesquisa, que afere o Indicador Nacional de Alfabetismo
Funcional, o Inaf (veja texto), instrumento de avaliação de competências
numéricas e de leitura, 29% dos brasileiros conseguem apenas extrair
informações básicas em contextos específicos e limitados, como a
identificação de um horário, por exemplo.
Se tivesse de descobrir
quantas pessoas se encontram nessas situações traduzidas por números
percentuais, ou seja, transformar os números relativos em absolutos,
qualquer aluno, a partir das séries intermediárias do ensino fundamental,
deveria ser capaz de chegar à solução, armando equações com a conhecida
"regra de três". No entanto, a proposição mais importante da questão não é
aquilo que demonstra em relação ao resultado, mas o que aponta acerca da
situação do ensino brasileiro de uma disciplina considerada fundamental
para o desenvolvimento do país, pois da aplicação de seus conhecimentos
dependem áreas-chave, como as diversas engenharias.
Antes de tudo é preciso saber
que, se o problema fosse lançado como um desafio público aos
brasileiros, a maioria não chegaria ao resultado. O relatório de
Avaliação de Habilidades Matemáticas aponta que apenas 23% da população
brasileira entre 15 e 64 anos seria "capaz de resolver problemas que
envolvam cálculo proporcional". Quer dizer, o problema é outro, muito
maior.
A professora da Faculdade de
Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Maria da
Conceição Ferreira Reis Fonseca explica que a pesquisa do Inaf, da qual
é consultora da área de matemática, não é feita apenas com estudantes,
mas adverte que os números apresentam indicações objetivas sobre o
ensino. Uma é que nenhuma pessoa que tenha pelo menos 4 anos de
escolaridade pertence aos 2% de analfabetos em matemática.
A mais importante, porém, diz
respeito à solução de problemas. Embora deixe clara a relação entre
aumento de escolaridade e maior intimidade com habilidades matemáticas,
a pesquisa mostra que mesmo entre alunos do ensino médio "a dificuldade
não está em fazer contas, mas em decidir que contas fazer", afirma Maria
da Conceição. Isso, segundo ela, aponta que "a escola ainda está se
preocupando demais com os aspectos técnicos da matemática e pouco com os
aspectos da reflexão, do planejamento, da busca de estratégias". Os
rumos do ensino são sinalizados na pesquisa também pela capacidade de
leitura e interpretação de representações matemáticas presentes na mídia
e comércio - como gráficos e tabelas, por exemplo -, habilidades
dominadas apenas por aqueles 23% da população.
"A escola
precisa contemplar isso de uma maneira mais sistemática, mais
diversificada e mais refletida porque não é só uma habilidade técnica,
exige também uma reflexão, uma certa malícia em relação a dados
quantitativos", diz a professora da UFMG.
Outra pista de como anda o
ensino nacional de matemática está no Programa de Avaliação
Internacional de Estudantes (Pisa), realizado pela Organização para a
Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e considerado o mais
importante teste de educação do mundo. Aplicado a 400 mil estudantes de
15 anos em 57 países durante 2006, o Pisa colocou o Brasil em 54o lugar
em matemática - e 49o em leitura e 52o em ciências -, na frente apenas
de Tunísia, Catar e do desconhecido Quirguistão, países que não podem se
gabar de PIBs generosos como o nosso. Embora haja quem festeje o aumento
da pontuação dos estudantes brasileiros em relação às médias obtidas em
2000 e 2003, o avanço não tirou o país do nível 1 de aprendizagem, em
uma escala que vai até o nível 6. Isso significa que o aluno brasileiro
de matemática, segundo critérios do exame, não é capaz de resolver
problemas simples.
A posição brasileira no ranking
do Pisa, no entanto, precisa ser observada com olhos mais atentos,
afirma o presidente da Sociedade Brasileira de Educação Matemática (Sbem),
Paulo Figueiredo Lima. Os testes aplicados no Pisa não têm como objetivo
avaliar conteúdos curriculares, mas procuram identificar se o aluno
possui "conhecimentos e habilidades necessários para a adaptação
bem-sucedida a um mundo em transformação", afirma o presidente da Sbem,
citando a publicação Estrutura de Avaliação - Pisa/2003. De acordo ainda
com Lima, também professor do Departamento de Matemática da Universidade
Federal de Pernambuco (UFPE), um conceito-chave aplicado aos testes do
Pisa é o letramento, que entende a matemática como atividade exercida
nos mais variados contextos e fonte de modelos para a resolução de
problemas, da vida cotidiana ao campo da tecnologia e da ciência. Para o
presidente da Sbem, essa concepção "implica uma formação matemática
inovadora, que valorize o desenvolvimento de competências para
selecionar e analisar informações, para raciocinar, para resolver
problemas, para argumentar e comunicar-se com outros, entre outras. Uma
formação que não valorize apenas armazenamento de informações, a
memorização e a repetição de procedimentos técnicos".
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