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Uma equação sem resultado

Disciplina vital para a formação do estudante e para o desenvolvimento do país, matemática ainda é um terreno desconhecido para a maior parte da população; caminhos para melhorar o ensino estão longe de um consenso

Henrique Ostronoff

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), principal órgão oficial de estatísticas do Brasil, 14,6 milhões de pessoas não sabem ler nem escrever, o que representa 9,6% da população total, hoje em torno de 185,9 milhões de habitantes. Outro levantamento, este realizado pelo Instituto Paulo Montenegro (IPM) e pela ONG Ação Educativa, no ano de 2004, indicava que 2% da população era analfabeta em números, ou seja, incapaz de realizar operações simples com números, como decodificar o preço de um produto ou anotar a seqüência de algarismos que compõe um telefone. Segundo a mesma pesquisa, que afere o Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional, o Inaf (veja texto), instrumento de avaliação de competências numéricas e de leitura, 29% dos brasileiros conseguem apenas extrair informações básicas em contextos específicos e limitados, como a identificação de um horário, por exemplo.

Se tivesse de descobrir quantas pessoas se encontram nessas situações traduzidas por números percentuais, ou seja, transformar os números relativos em absolutos, qualquer aluno, a partir das séries intermediárias do ensino fundamental, deveria ser capaz de chegar à solução, armando equações com a conhecida "regra de três". No entanto, a proposição mais importante da questão não é aquilo que demonstra em relação ao resultado, mas o que aponta acerca da situação do ensino brasileiro de uma disciplina considerada fundamental para o desenvolvimento do país, pois da aplicação de seus conhecimentos dependem áreas-chave, como as diversas engenharias.

Antes de tudo é preciso saber que, se o problema fosse lançado como um desafio público aos brasileiros, a maioria não chegaria ao resultado. O relatório de Avaliação de Habilidades Matemáticas aponta que apenas 23% da população brasileira entre 15 e 64 anos seria "capaz de resolver problemas que envolvam cálculo proporcional". Quer dizer, o problema é outro, muito maior.

A professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Maria da Conceição Ferreira Reis Fonseca explica que a pesquisa do Inaf, da qual é consultora da área de matemática, não é feita apenas com estudantes, mas adverte que os números apresentam indicações objetivas sobre o ensino. Uma é que nenhuma pessoa que tenha pelo menos 4 anos de escolaridade pertence aos 2% de analfabetos em matemática. 

A mais importante, porém, diz respeito à solução de problemas. Embora deixe clara a relação entre aumento de escolaridade e maior intimidade com habilidades matemáticas, a pesquisa mostra que mesmo entre alunos do ensino médio "a dificuldade não está em fazer contas, mas em decidir que contas fazer", afirma Maria da Conceição. Isso, segundo ela, aponta que "a escola ainda está se preocupando demais com os aspectos técnicos da matemática e pouco com os aspectos da reflexão, do planejamento, da busca de estratégias". Os rumos do ensino são sinalizados na pesquisa também pela capacidade de leitura e interpretação de representações matemáticas presentes na mídia e comércio - como gráficos e tabelas, por exemplo -, habilidades dominadas apenas por aqueles 23% da população.

"A escola precisa contemplar isso de uma maneira mais sistemática, mais diversificada e mais refletida porque não é só uma habilidade técnica, exige também uma reflexão, uma certa malícia em relação a dados quantitativos", diz a professora da UFMG.

Outra pista de como anda o ensino nacional de matemática está no Programa de Avaliação Internacional de Estudantes (Pisa), realizado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e considerado o mais importante teste de educação do mundo. Aplicado a 400 mil estudantes de 15 anos em 57 países durante 2006, o Pisa colocou o Brasil em 54o lugar em matemática - e 49o em leitura e 52o em ciências -, na frente apenas de Tunísia, Catar e do desconhecido Quirguistão, países que não podem se gabar de PIBs generosos como o nosso. Embora haja quem festeje o aumento da pontuação dos estudantes brasileiros em relação às médias obtidas em 2000 e 2003, o avanço não tirou o país do nível 1 de aprendizagem, em uma escala que vai até o nível 6. Isso significa que o aluno brasileiro de matemática, segundo critérios do exame, não é capaz de resolver problemas simples.
 

A posição brasileira no ranking do Pisa, no entanto, precisa ser observada com olhos mais atentos, afirma o presidente da Sociedade Brasileira de Educação Matemática (Sbem), Paulo Figueiredo Lima. Os testes aplicados no Pisa não têm como objetivo avaliar conteúdos curriculares, mas procuram identificar se o aluno possui "conhecimentos e habilidades necessários para a adaptação bem-sucedida a um mundo em transformação", afirma o presidente da Sbem, citando a publicação Estrutura de Avaliação - Pisa/2003. De acordo ainda com Lima, também professor do Departamento de Matemática da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), um conceito-chave aplicado aos testes do Pisa é o letramento, que entende a matemática como atividade exercida nos mais variados contextos e fonte de modelos para a resolução de problemas, da vida cotidiana ao campo da tecnologia e da ciência. Para o presidente da Sbem, essa concepção "implica uma formação matemática inovadora, que valorize o desenvolvimento de competências para selecionar e analisar informações, para raciocinar, para resolver problemas, para argumentar e comunicar-se com outros, entre outras. Uma formação que não valorize apenas armazenamento de informações, a memorização e a repetição de procedimentos técnicos".

continua...

 

 
 

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