SÃO PAULO - As
políticas de inclusão digital, que estimulam o uso de
computadores nas escolas, podem estar gravemente equivocadas,
de acordo com um estudo realizado pela Universidade Estadual
de Campinas (Unicamp), divulgado nesta quarta-feira, 13, pela
Agência Fapesp. A pesquisa mostra que o uso de computadores
para fazer tarefas escolares está relacionado ao pior
desempenho dos alunos - principalmente entre os mais pobres e
mais jovens.
Veja
a íntegra do estudo
O trabalho, publicado
na revista Educação e Sociedade, foi coordenado por
Jacques Wainer, do Instituto de Computação, e por Tom Dwyer,
do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. A equipe
utilizou dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb)
de 2004.
“Existe hoje uma
posição dominante favorável ao uso do computador nas escolas,
como se ele estivesse associado a uma melhoria uniforme no
desempenho do aluno. Mas constatamos que ocorre o contrário:
entre alunos da mesma classe social os que sempre usam têm
pior desempenho”, disse Wainer à Fapesp.
Do ponto de vista de
políticas públicas, o estudo aponta que é preciso entender
melhor o fenômeno do impacto dos computadores nas notas dos
alunos antes de defender a inclusão digital baseada na
distribuição de tais equipamentos.
“Idéias como a de dar
um laptop para cada criança parecem péssima opção,
principalmente considerando que ele piora o desempenho escolar
entre as crianças mais pobres. Corremos o risco de transformar
a inclusão digital em uma exclusão educacional”, afirmou
Wainer.
Segundo ele, a pesquisa foi
derivada do Mapa da Exclusão Digital, publicado pela Fundação Getúlio
Vargas do Rio de Janeiro em 2003. O documento apontava um melhor
desempenho no Saeb entre os estudantes que tinham computador em casa.
“O documento dava um argumento
favorável às políticas de inclusão digital. Mas havia problemas
metodológicos: em geral quem tem computador em casa são os alunos mais
ricos, que normalmente têm melhor desempenho. Para eliminar esse viés
resolvemos considerar a classe social e focar no uso para tarefas
escolares”, explicou.
O Saeb de 2004, segundo Wainer,
prestava-se ao propósito, uma vez que incluía uma pergunta sobre a
freqüência com que os alunos utilizavam o computador para tarefas
escolares: nunca, raramente, de vez em quando e sempre.
“Usamos esses dados sobre alunos
de 4ª e 8ª série do ensino fundamental e do 3º ano do ensino médio e
pudemos avaliar a variação do desempenho nas provas de matemática e
português de acordo com a classe econômica, dividida em sete estratos”,
explicou o professor do Instituto de Computação da Unicamp.
Sem mágica
Os resultados mostraram que, na
4ª série, os estudantes de classe alta que usaram raramente o computador
para as tarefas tiveram, em média, 15 pontos a menos do que os que nunca
o fizeram - tanto em português quanto em matemática.
Dentre os mais pobres os que
usaram o computador, mesmo raramente, tiveram nota pior do que os que
nunca usaram, com uma diferença média de 25 pontos em português e 15
pontos em matemática. “O resultado mais importante, no entanto, surgiu
quando os estudantes disseram sempre usar o computador. Entre esses, não
importou a classe social ou disciplina, o desempenho foi sempre pior do
que entre os que nunca usaram”, disse Wainer.
Entre os alunos da 8ª série, o
quadro foi semelhante, mas houve uma melhora na prova de português entre
os alunos que usaram raramente o computador. Em matemática, a diferença
não foi significativa. “Mesmo assim, na 8ª série os mais pobres que
usaram raramente ainda se saíram pior do que os que nunca usaram. Entre
os mais ricos, os alunos que usaram raramente estiveram um pouco melhor
do que os que não usaram”, contou.
Em matemática, para a maioria
das classes sociais da 8ª série, os alunos que usaram raramente o
computador se saíram melhor do que os que nunca o fizeram. “Por outro
lado, quem usou sempre teve desempenho pior do que os que nunca usaram,
em todos os casos”, destacou Wainer. Todos os dados passaram por teste
de significância estatística, para eliminar o chamado ruído
estatístico.
Segundo Wainer, a pesquisa
constata apenas estatisticamente que os alunos que sempre usam o
computador para suas tarefas têm pior desempenho. Mas não há dados para
explicar por que o uso intenso piora as notas e por que o efeito é mais
grave entre crianças de classes sociais mais baixas.
“Só podemos especular sobre os
motivos. Para conhecê-los será preciso que outros especialistas utilizem
ferramentas diferentes para realizar estudos qualitativos. O importante
é destacar que os resultados são coerentes com outros estudos
internacionais”, afirmou.
O pesquisador destaca que a
avaliação de que o computador é uma ferramenta neutra é equivocada.
“Como o computador é bom para nós, professores, por exemplo, tendemos a
achar que ele é útil para todos. Mas ele não é uma solução mágica para a
educação”, disse.
Para ler o artigo Desvendando
mitos: os computadores e o desempenho no sistema escolar, de Jacques
Wainer e outros, disponível na biblioteca on-line SciELO (Bireme/FAPESP),
clique
neste link.