O Congresso Nacional abre a próxima legislatura com
um passivo de cerca de cem projetos relacionados ao ensino superior
privado e uma lista parca de propostas com chances reais de chegar ao
plenário da Câmara e do Senado em curto ou médio prazo.
Ao mesmo tempo, o Parlamento guarda em suas gavetas
projetos antigos e, em alguns casos, raramente discutidos.
A maior parte da lista de proposições que versam
sobre o ensino superior - cerca de uma centena tramitando na Câmara e no
Senado - ainda tem de percorrer um longo caminho até alcançar a atenção
do plenário. Esse é o caso da chamada Reforma Universitária, sugerida há
mais de quatro anos e ainda sem expectativa de votação.
Uma das maiores barreiras para a tramitação de
projetos ainda pode ser o governo, apesar da derrota no final do ano na
votação pela manutenção da CPMF. Com maioria nas duas Casas, o Executivo
determina o que vai a voto e usa a força parlamentar que tem para frear
deliberações que contrariam seu interesse.
As circunstâncias políticas e eventuais polêmicas em
torno de matérias consideradas prioritárias pelo setor de ensino
superior privado jogam dúvidas sobre o futuro imediato de algumas
proposições, especialmente aquelas que não contam com o carimbo
governista.
Exemplo disso é o uso do Fundo de Garantia por Tempo
de Serviço (FGTS) para o pagamento de mensalidades da graduação. A
proposta foi incluída na Lei nº 11.552, que reformulou as regras do
Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior (Fies). Apesar de
a lei ter sido aprovada em outubro passado pelo Senado, o dispositivo
foi vetado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em novembro.
A negativa contundente do Palácio do Planalto não
impede, entretanto, que tanto a Câmara quanto o Senado analisem outras
versões do mesmo tema. No Senado, oito projetos de lei tratam da
liberação do FGTS para custear o ensino superior, sete deles em estágio
avançado de tramitação, prontos para ordem do dia do plenário da Casa.
Propostos por parlamentares da oposição e do governo, esses projetos de
lei ganham apoio de diversas correntes políticas, o que transforma o
veto recente do presidente Lula em batalha ainda longe do fim.
Na Câmara, tramitam 17 projetos na Comissão de
Educação e Cultura envolvendo a liberação do Fundo. Apenas um deles, o
PL 3961, de 2004, foi acatado no fim do ano passado pela relatora,
deputada Maria do Rosário (PT-RS). O parecer da deputada autoriza o uso
da conta vinculada ao FGTS para o pagamento de parcelas universitárias,
limitando o saque em 30% do saldo total. Os 16 projetos restantes,
incluindo o que libera a utilização integral do FGTS (PL 4454, de 2004),
foram rejeitados no parecer da deputada, ainda pendente de deliberação.
Em outra esfera, a Receita Federal resiste à criação
de uma linha de crédito com esses recursos. Pelas regras atuais, a
movimentação só é permitida aos trabalhadores em casos de aposentadoria,
aquisição da casa própria, doenças graves e demissão sem justa causa.
Espécie de poupança aberta pelo empregador em nome do funcionário, com
depósitos mensais de 8% sobre o valor do salário, o FGTS acumula saldo
anual superior a R$ 80 bilhões. A utilização do FGTS demonstra a faceta
de que diferentes órgãos do governo também podem brigar entre si para
ter seus interesses preservados.
No Legislativo, alguns setores tentam outras formas
de minimizar as pendências fiscais de instituições privadas e de ampliar
o crédito estudantil no país. O governo, no entanto, não quer ouvir
falar em perda de arrecadação, sobretudo após a derrota da prorrogação
da CPMF no Senado, em meados do último dezembro.
O PL 8, de 2007, por exemplo, apresentado pelo
senador Francisco Dornelles (PP-RJ), concede isenção da Contribuição
para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) às instituições de
ensino e pesquisa no Brasil sem fins lucrativos. Outros projetos
autorizam a utilização dos recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT)
para o pagamento de mensalidades em instituições de ensino superior e
outros fins. O PL 177, de 2002, apresentado pelo senador José Agripino (DEM-RN),
e aprovado em dezembro do ano passado pela Comissão de Educação daquela
Casa, estabelece o uso de recursos do FAT para o financiamento de
estágios remunerados em empresas e universidades.
Na Câmara, o PL 2.954, de 1997, regulamenta o
pagamento pelas empresas das mensalidades escolares de seus funcionários
e estabelece que as empregadoras podem deduzir o custo com as
mensalidades como despesa operacional e, ainda, deduzir mais 2% do
Imposto de Renda devido a título de incentivo fiscal. Sem previsão de
votação no curto prazo, o projeto está pronto para a pauta da Comissão
de Constituição e Justiça da Câmara desde 2004.
Outro passivo parlamentar para os próximos dois anos
é o Projeto nº 341, de 2003, que altera a chamada "lei do calote" e
permite o desligamento de alunos inadimplentes. Apesar de crucial para o
setor, a proposta está parada há anos em diferentes comissões de mérito
da Câmara e com poucas perspectivas de avanço em curto prazo por ter
blocos partidários contrários ao tema.
Alguns projetos, normalmente fixando limitações às
instituições educacionais, chegam a avançar sobre a própria lei do
calote. É o caso do PL 3.794, de 1997, que foi desarquivado em março de
2007 por determinação da Mesa Diretora da Câmara, após pedido de
deputados do PT.
O projeto concede ao estudante universitário em
débito com a instituição o direito de trancar ou renovar sua matrícula.
O PL incorpora, ainda, outras seis proposições, incluindo a 2.454, de
2000, que obriga as instituições de ensino superior a restituir os
valores pagos pelos novos estudantes que nelas tenham cancelado a
matrícula mediante comprovação de ingresso em outra instituição. Apesar
de ter voltado ao centro das discussões nas comissões de mérito, após
décadas de paralisia, ainda não há previsão para conferir à proposta
status de tramitação prioritária.
Há projetos, no entanto, que rompem as tradicionais
barreiras e dão passos mais rápidos. O presidente da Câmara, deputado
Arlindo Chinaglia (PT-SP), conseguiu acelerar uma proposição de sua
autoria. O PL 65, de 2003, aprovado na Comissão de Educação com diversas
modificações de mérito, foi colocado na ordem do dia do plenário em
regime de urgência.
A proposta original tem preocupado segmentos do
setor, por proibir a criação de novos cursos de Medicina e a ampliação
de vagas nos cursos existentes nos dez anos seguintes à aprovação da
lei. Caso aprovado, o projeto teria conseqüências diretas sobre o
setor, mesmo para aqueles que não tenham cursos da área médica,
almejados pela maioria das instituições.
A probabilidade de o projeto passar na Câmara é
grande. Segundo assessores diretos, Chinaglia, que é médico, vai brigar
para retomar sua idéia inicial. A disputa deve ser travada no Senado.
Essa deve ser uma das primeiras e principais brigas
do ano legislativo que se inicia. Mais uma na rodada de proposições que
se acumulam (leia na página 17 os principais projetos em tramitação no
Legislativo).